Uma pesquisa baseada na Universidade de Toronto, no Canadá, confirmou os resultados de uma série de pesquisas que relacionam a obesidade à depressão. Porém, parte importante da relação passa pela pressão para ser esbelto(a) e malhado(a) e pelo sentimento de não gostar do seu corpo. A pesquisa foi  feita com mais de mil e cem meninos de 13 a 16 e de um número ligeiramente maior de meninas da mesma faixa de idade.… Esses resultados indicam que a relação é, em parte, agravada pela pressão social para ter um corpo definido como bonito.

Há duas semanas, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo
tornou públicos os dados sobre a criminalidade no último trimestre. É
um ato corriqueiro em paises com transparência e tem sido um
comportamento contínuo no Estado de São Paulo há muitos anos. Mas, para
vergonha nossa, ainda há estados no país que não divulgam os dados, há
os que os maquilam e adulteram, ou os publicam com muito atraso.

Os dados divulgados talvez não causassem reação não fosse São
Paulo o único estado brasileiro a exibir bons resultados há muito
tempo: os homicídios vêm baixando há 29 trimestres e São Paulo é, hoje,
uma referência internacional no controle da violência, juntamente com
Nova Iorque, Bogotá, Medellín e alguns outros lugares. Ocupa, no
Brasil, uma posição invejável. Há debates e discordância sobre o as causas dessa redução, mas não a respeito da sua existência.

O estado foi administrado pelo PSDB desde Mario Covas o que
introduz uma dimensão político-partidária. Evidentemente, políticos e
simpatizantes afiliados a outros partidos se sentem incômodos com o
contraste entre o êxito paulista e o fracasso em tantos estados com
governadores de seus partidos.

Os resultados recém divulgados não foram tão bons quanto os
anteriores. Os criminólogos olham para isso com tranqüilidade; porém
alguns políticos, inclusive jornalistas comprometidos politicamente,
sem familiaridade com os dados criminais, expressaram sua alegria.

O que houve? Os homicídios cresceram 0,7% no Estado, porém na
capital e na Grande São Paulo caíram 6%, uma queda considerável. Mesmo
computando o pequeno aumento, a taxa paulista é, de longe, a mais baixa
do país. Se os dados seguintes indicarem a mesma tendência à
estagnação, muda a forma do fenômeno, que já é conhecida. Chegaram a um
plateau.

O que é isso? Algo que acontece com quase todas as políticas
públicas bem sucedidas: chegaram ao limite, até onde poderiam chegar.
Aconteceu com muitas legislações e com as políticas públicas que se
originaram nelas. A “antiga” Lei do Trânsito reduziu as mortes durante
quase duas décadas, mas passou a provocar reduções cada vez menores.
Alguns chamam isso de efeito-chão (não dá para baixar mais) que, visto
positivamente, é um efeito-teto. Os efeitos desse tipo não indicam que
chegamos ao limite do possível; indicam que chegamos ao limite dessas políticas.
A “nova” Lei do Trânsito provocou uma redução substancial de mais de
quatro mil mortes (vidas salvas) só no seu primeiro ano. Infelizmente,
a implementação das mesmas medidas ficou cada vez mais desleixadas e as
mortes no trânsito voltaram a aumentar.

É importante saber que, quando há um grande crescimento ou uma grande redução, a composição dos homicídios se altera.
Vítimas e assassinos não são os mesmos quando as taxas são altas e
quando são baixas. Os homicídios não são todos iguais; há tipos muito
diferentes – difere a vítima, difere o autor, difere a relação entre
eles, difere a arma, difere o local da ocorrência e muito mais. No
Brasil das últimas décadas, o crescimento dos homicídios tem uma
vinculação íntima com o tráfico de drogas e de armas e com o crime
organizado (sem colocar o grau de “organização” dos traficantes num
nível empresarial). Quando há explosões de homicídios, as taxas de
crescimento das mortes masculinas é substancialmente mais alta
do que a das femininas. Quando houve redução rápida, ela foi maior
entre os homens. As políticas públicas aconselhadas para paises com
altas taxas de homicídio são claramente diferentes das aconselhadas
para países com baixas taxas.

Quando o êxito das políticas anteriores tem rendimentos decrescentes significa que há necessidade de novas políticas, assim como de aperfeiçoamento
das anteriores. Reduzidos os homicídios relacionados com o tráfico,
cresce a significação relative dos homicídios entre íntimos. Porém, a
prevenção de homicídios entre íntimos difere muito da prevenção de homicídios associados ao tráfico etc.

Crimes diferentes não têm a mesma fidedignidade, nem o mesmo
peso, daí a dificuldade em construir índices de criminalidade – nos
mais simples, que simplesmente somam os crimes, o furto de um celular
pesa tanto quanto um homicídio, um absurdo. As pesquisas de vitimização
mostram que a sub-enumeração de alguns crimes é de tal magnitude que
desfigura os dados. Um “crescimento” pode não significar um crescimento
do crime, mas da confiança nas instituições. Há perigosos viéses
seletivos: escolher os que mais cresceram para desacreditar a política
ou os que mais caíram para mostrar seus méritos. Um dos artigos
publicados mostra um crescimento de 36% nos latrocínios, sem informar
que os latrocínios representam uma percentagem pequena do total de
mortes violentas intencionais. Naquele trimestre houve 94 latrocínios,
1001 homicídios culposos no trânsito, e 1207 vitimas de homicídios
intencionais. A redução nos homicídios culposos no trânsito foi maior que a totalidade dos latrocínios no trimestre…

Outro dado importante tem a ver com a distribuição geográfica dos
crimes com estatísticas confiáveis. Há muita variação entre as taxas
dos municípios e das regiões paulistas, sugerindo fenômenos mais
localizados que requerem atenção concentrada: algo diferente está
acontecendo nessas áreas.

Precisamos melhorar a qualidade dos dados e reduzir a
sub-enumeração dos  crimes. Enquanto isso não acontece, temos que
trabalhar com os mais confiáveis: os que deixam cadáveres, assim como
furtos e roubos de veículos, dada a obrigatoriedade do registro para
obter o seguro. E o leitor deve se informar para poder ler criticamente o que publica.

Gláucio Ary Dillon Soares

Publicado no Correio Braziliense

Há uma escala de estresse na vida que inclui muitas mudanças, inclusive as consideradas boas, como casar com alguém que se ama e nos ama. Mas a tendência é clara: quanto mais mudança na nossa vida, tanto mais estresse e, secundariamente, os problemas associados com o estresse. Embora, na maioria dos países estudados, a taxa de suicídios tenda a subir com a idade, sobretudo com as idades avançadas, em vários ela sobe na adolescência e na maturidade jovem. Entre esses, em alguns ela desce depois, na maturidade, em outros não. O que explicaria esse crescimento, nos lugares em que ele acontece? Talvez comecemos a responder essa difícil pergunta, cuja resposta necessariamenete inclui muitos fatores, comparando quem não se suicida com quem se suicida (ou tentam seriamente). Uma pesquisa desse tipo acaba de ser feita na Dinamarca. O que descobriram? Que quanto mais a família se mudava de um lugar para outro, maior o risco de suicídio. Adolescentes entre 11 e 17 anos que mudaram dez ou mais vezes tinham um risco de tentar o suicídio quatro vez mais alto do que os que se mudaram que não se mudaram; os que se mudaram menos, entre de três a cinco vezes ficavam no meio: o dobro dos que nunca se mudaram e a metade dos que se mudaram dez vezes ou mais. Por conveniência de pesquisa, somente os que se mudaram de uma residência para outra na mesma rua não foram computados como mudanças. O pesquisador principal, Dr. Ping Qin, do Centre for
Register-Based Research
na Aarhus University, está consciente de que a relação não é causal nem direta. As mudanças que trazem outras mudanças, como de escolas e grupos de amigos, são mais drástica. Eu hipotetizo que mudar entre lugares conhecidos é menos estressante do que para lugares desconhecidos. Há muitas endogenias possíveis. As famílias que se movem mais podem ser menos estáveis como famílias, também podem enfrentar mais problemas financeiros, variáveis que afetam diretamente os adolescentes. Esse estudo confirma outros que revelam que as crianças e adolescentes que mudam muito de residência têm mais alto risco de doenças mentais. Há outras variáveis que também são afetadas: o rendimento na escola, o risco de abandono da escola, assim como a sexualidade prematura.

Fonte: The Archives of General Psychiatry

As pequenas melhorias não entusiasmam tanto quanto as grandes, ainda que salvem mais vidas, assim como os riscos do quotidiano provocam menos medo do que os acontecimentos que acontecem pouco mas matam muitos, como Chernobyl. Em pouco tempo, os mortos no trânsito superaram em número os mortos em Chernobyl.

O câncer é parecido. A abiraterona apareceu muito na media porque prometia a cura (de fato, não é cura, longe disso), mas poucos se impressionam com o fato de que, cada ano mais pessoas são salvas e menos morrem de câncer. Um artigo por Steve Buttry argumenta ao longo desse raciocínio, que não é novo.

Não obstante, houve muito progresso. Ele relata que em meados da década de 70 a mãe da sua esposa e o pai dele descobriram que tinham câncer. Nas décadas de 60 e 70 o grande público acreditava que câncer era sinônimo de morte. De fato, parecia. O pai de Steve foi diagnosticado com câncer da próstata e morreu em um ano; a sogra de Steve foi diagnosticada com câncer no cólon e morreu em três. Hoje, a expectativa de vida das pessoas que são diagnosticadas com esses cânceres é muito, muito maior. O proprio Steve enfrentou um câncer do colon, fez cirurgia e já se passaram dez anos. Ficou atento e, por isso, fez outra para retirar pólipos.
O câncer tem uma dimensão genética e o irmão de Steve também teve câncer na prostata. Porém, as coisas mudaram desde as décadas de 60 e 70: hoje 98% dos pacientes que sofrem desse câncer estão vivinhos cinco anos depois do diagnóstico. O câncer do cólon, antes considerado letalíssimo, também apresentou melhoras na sobrevivência: 64% estão vivos cinco anos depois do diagnóstico. Se fôr diagnosticado antes da metástase, a percentagem sobe para 90%.
Câncer é uma barra: nos Estados Unidos matará, esse ano, entre quinhentas e seiscentas mil pessoas. Porém, mais gente sobrevive ao câncer do que morre dele. A American Cancer Society calcula que haja onze milhões de americanos que tiveram câncer e não morreram. O progresso é muito desigual e alguns cânceres, como o do pâncreas e um dos cânceres do cérebro, o glioblastoma, por exemplo, continuam sendo de altíssima letalidade. Mas a direção é clara: maior sobrevivência.

O nome, em Inglês, é pets. Pets são animais domésticos, em grande maioria cachorros e gatos. Sabemos, há mais de um quarto de século, como resultado de pesquisas, que acariciar um cachorro ou um gato reduz a pressão sanguínea, reduz as batidas cardíacas e muito mais. Pacientes que tiveram um ataque do coração se recuperam mais rápido e vivem mais tempo se tiverem um pet em casa. Crianças que crescem com gatos e cachorros tem menos alergias e asma. A existência e o contacto com pets aumenta a nossa produção de serotonina e de dopamina, que estão relacionadas com o nosso humor – quanto mais, melhor. Ajudam, mesmo, a combater a depressão.

Porém, não são apenas os pacientes que melhoram com os pets. Cuidar de idosos e de pacientes pode ser muito estressante e estudos mostram que quem o faz também se beneficia de ter um cachorrinho ou um gatinho. Isso também foi demonstrado.

Contudo, os grandes beneficiários, em potencial, são os idosos. Não é fácil ser idoso, e é pior ser um idoso inativo. A idade, juntamente com a saúde e a falta de projetos, é uma das correlatas mais frequentes da depressão e do suicídio. O “modelo húngaro” nada mais é do que o crescimento súbito e contínuo da taxa de suicídios com a idade, começando com a aposentadoria. A última pesquisa nessa área foi feita em St. Louis: os idosos que passavam tempo com um cachorro se sentiam mais felizes e esse efeito era maior quando não tinham que “dividir” o cachorro com outro idoso.

Por que?

O tempo passado com pets é retirado do tempo gasto com preocupações inúteis e com a solidão. Há uma importante reciprocidade na relação com gatos e cachorros: nós cuidamos deles, e eles cuidam de  nós. Infelizmente, muitos idosos são abandonados no fim da vida, inclusive com parentes mais preocupados em construir suas próprias vidas. Eles são os grandes beneficiários de um gato ou um cachorro.

Ter excesso de peso aumenta o risco de suicídio entre adolescentes americanos. Pior: pensar que é gordo ou, principalmente, gorda, também aumenta. Essa pesquisa examinou 14 mil adolescentes e relacionou um indicador clássico de gordura, o BMI (Body Mass Index) e as tentativas de suicídio. Relacionou, também, a crença em ser gordo ou gorda e as tentativas de suicídio. Monica
Swahn, Ph.D., pesquisadora, confirmou que além da gordura, a crença na gordura aumentam o risco de suicídio. O maior risco era entre os que conjugavam os dois fatores: eram obesos e se preocupavam com isso.  A associaçao vale para os dois sexos, quebrando a expectativa de que valeria apenas para as meninas.

Nao há dúvida de que o excesso de peso é um problema para a saúde e que, nos Estados Unidos, é um problema para a saúde pública – assim como em certas áreas e classes no Brasil. Nao obstante, transformar uma recomendaçao médica em um padrao comportamental obrigatório gera outras doenças, como bulímia, anorexia e até suicídios.

Fonte: Journal of Adolescent Health.

As pessoas com alguns tipos de doenças mentais cometem mais crimes do que as que não padecem dessas mesmas doenças. Essa é uma relação provada e demonstrada em Criminologia através de pesquisas feitas em diferentes países. Não obstante, pesquisa recente dirigida por Brent Teasdale, professor na Georgia State University, produziu novas informações: as doenças mentais aumentam mais o risco do paciente de se tornar vítima de um crime do que de cometer um crime. Teasdale foge dos rótulos mais ambiciosos das doenças mentais e se concentra em comportamentos e sintomas mais específicos. Pacientes que sofrem de alucinações, por exemplo, são vítimas preferenciais de crimes, o mesmo passando com pacientes com delírios. O risco de vitimização é multiplicado quando o paciente está drogado ou alcoolizado, ou não possui residência. Contudo, morar ou não na rua é uma variável associada com a vitimização de direito próprio. Os moradores de rua são vitimas de crimes com muito mais freqüência do que os que tem um “ponto”, um lugar onde dormir. Essa é uma relação que se explica por várias teorias, inclusive a dos encontros, a de atividades de rotina e a de oportunidades. Os moradores de rua passam mais tempo expostos a agentes do crime do que os demais, que ou têm residência fixa ou dispõem de um ou mais “pontos” onde passar a noite e/ou parte do dia. Os momentos em que um morador de rua passa num ponto protegido reduzem o risco de crime. Essa redução é de particular importância à noite, como previsto pela Teoria dos Encontros. Essa teoria propõe que nas sociedades modernas o risco de um encontro com um criminoso é mais alto à noite. Para evitar esses encontros, é mais importante ter onde ficar à noite do que ter onde ficar durante o dia. Teasdale quantificou o risco. Os doentes mentais que experimentam delírios têm o dobro do risco de vitimização do que os que não os experimentam. A população tem receio dos doentes mentais, particularmente se esses apresentarem sintomas como delírios e alucinações. De fato, as doenças mentais aumentam a probabilidade de cometer um crime, violento ou não. E, entre os doentes mentais, os que apresentam delírios e alucinações cometem mais crimes do que os que não apresentam esses sintomas. Essas relações são verdadeiras, mas provocaram um medo generalizado e um estigma. O estigma pode aumentar a violência preventiva contra doentes mentais. Creio que, na maior parte dos casos, as pessoas tomam medidas e ações evasivas e algumas cometem violências verbais, mas algumas cometem violências físicas que, hipotetizo, não seriam cometidas se as vítimas fossem pessoas “normais”. Os doentes mentais, nos momentos da doença, podem estar confusos e voltados para dentro, distorcendo suas percepções do ambiente que os circunda. Percebem pouco e avaliam pior. Nas explosões de delírios e alucinações as pessoas encarregadas, inclusive voluntariamente, de cuidar dos pacientes podem fugir dos pacientes e da sua responsabilidade, deixando-os à mercê dos encontros negativos. Não é fácil lidar com delírios e alucinações. Os resultados sugerem algumas medidas preventivas. Parentes e amigos de pacientes mentais, em geral, devem ser alertados a respeito da maior vulnerabilidade deles, em particular dos que apresentam delírios e alucinações. Nos paises em que predomina a “lei de Gerson” e o limiar da responsabilidade é baixo, esse abandono talvez seja mais freqüente e os riscos para o paciente muito mais elevados. As conclusões de Teasdale foram baseadas numa pesquisa chamada de MacArthur Violence Risk Assessment Study, que acompanhou durante um ano pacientes que tiveram alta de hospitais psiquiátricos. Respondendo à pergunta contida no título, a resposta baseada em dados é que o risco é mais alto de que sejam “vítimas e criminosos”.

Há uma corrida silenciosa entre a vida e a morte e nossas vidas podem depender dessa corridaHarris, Thomas, Fisher e Hirsch publicaram, há poucos anos, um artigo chamado Murder and Medicine – The Lethality of Criminal Assault 1960-1999, sobre a letalidade das armas. De que trata? Trata da letalidade das armas mais mortais, as chamadas assault weapons. A letalidade delas aumentou muito; afinal, são feitas para matar e a tecnologia da morte “progrediu”. Progrediu no projétil, no combustível, na arma. Mata mais. Essa é a letalidade abstrata, técnica. Porém, a letalidade estatística caminhou no sentido oposto – diminuiu. Estatisticamente, mais pessoas atingidas por projeteis de assault weapons sobreviveram nos últimos anos do que há muitos anos. Por que? É um paradoxo. Como explicá-lo? A resposta reside na evolução paralela da tecnologia da vida. Em primeiro lugar, o atendimento imediato, no local, por pessoal chamado de para-médico, evoluiu, salvando vidas. As ambulâncias, que antes só serviam para transportar feridos, também evoluíram, são mais equipadas, permitindo cuidados aos feridos que, antes, só estavam disponíveis nos hospitais. A rapidez do atendimento é fundamental e se correlaciona negativamente com a letalidade. Quanto mais rápido for o atendimento, menor a percentagem dos pacientes que morrem. A rapidez do atendimento não depende, apenas, de ambulâncias mais equipadas e de pessoal mais treinado: depende, também, de fatores culturais, políticos e cívicos. Melhorias no trânsito permitem maior rapidez no atendimento. Depois de algumas administrações mais competentes, o trânsito flui melhor. O civismo também contribui, por exemplo, com os motoristas abrindo espaços para as ambulâncias. Em culturas com baixo nível de civismo, isso não se dá e alguns tentam, inclusive, se aproveitar da rota rápida aberta pela ambulância ou pelo carro de bombeiros. São ações características de sociedades com um nível de cultura cívica muito baixo. Alguns leitores devem estar se perguntando se esse nível mais elevado e funcional de cultura cívica existe de verdade. Existe, mas não é igual em todos os lugares: é mais desenvolvido e funcional em alguns países do que em outros e, dentro do mesmo país, em umas regiões do que em outras. Juntas, essas variáveis formam estruturas de risco que se repetem ano trás ano. Devido a essa estabilidade estrutural, nos permitimos afirmar, por exemplo, que, com os dados disponíveis até poucos anos atrás, a taxa de mortes violentas de homens jovens e maduros (menos de 65 anos) na Rússia era nove vezes a de Israel e doze vezes a da Grã-Bretanha. Essa estabilidade afeta todas as mortes violentas. Por exemplo: as taxas de mortalidade por dez mil veículos. Ano trás ano, os estados com taxas mais altas estão no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Após a chegada ao hospital, há melhorias que ajudaram a elevar a percentagem dos que sobreviveram sobre o total dos atingidos. A criação de centros especializados de trauma, a disponibilidade de equipamento muito mais sofisticado e o atendimento por pessoal mais competente, contribuem para reduzir a taxa de mortalidade. Esses processos interceptam nossa existência. Somos afetados pelas velocidades com que chegam a nós. Infelizmente, a transferência da tecnologia da morte talvez seja mais rápida do que a da vida. Leva menos tempo comprar uma arma mais letal do que equipar hospitais e ambulâncias e treinar melhor o pessoal do atendimento e da emergência.

Em Wisconsin, o <i>Department of Health Services</i> (DHS) mostrou várias coisas durante uma semana dedicada a conscientizar minorias sobre o câncer.
•    A primeira: o câncer de pulmão é o que mais mata no estado;
•    A segunda: as taxas variam muito entre as raças e as etnias;
•    A terceira: o culpado por esses cânceres é o fumo e, através dele, o próprio fumante. O fumo primário e secundário responde por 85% dos cânceres do pulmão.
A incidência de cânceres de pulmão entre negros é 98º% mais alta do que entre brancos; depois dos negros, estão os indígenas americanos. A taxa de mortalidade segue a mesma ordem. Os fatores de risco seguem a mesma hierarquia.
Não é de hoje que sabemos que grupos raciais e classes sociais apresentam respostas diferenciais a programas de prevenção. No Distrito Federal, os êxitos do Paz no Trânsito foram maiores no Plano Piloto do que nas comunidades satélites. Em quase todo o mundo, os mais educados, os mais ricos e as comunidades mais favorecidas respondem melhor às campanhas preventivas.
A experiência é ampla e demonstra que a associação conhecimento→prevenção não é automática. Uso de drogas, uso de cigarros, campanhas de redução da violência, do controle de armas, de prevenção de DSS’s e da gravidez não desejada não funcionam igualmente em todos os grupos. Os programas de redução do consumo de cigarros não decolaram entre os negros americanos jovens.
A Secretária Karen Timberlake afirmou que um imposto no imposto da venda de cigarros que foi proposto pelo Governador Doyle terá um impacto positivo. Podemos quase garantir que ele afetará uns mais do que outros.
O câncer do pulmão tem uma interessante característica: o fator mais importante é a prevenção total e não o diagnóstico precoce. O prognóstico dos cânceres iniciais não difere tanto dos avançados como em outros cânceres, a exemplo dos cânceres do cólon e da mama.
Um dado que deveria intimidar, mas é menos eficaz do que se esperava, ensina que a taxa de mortalidade dos cânceres de pulmão é bem menor do que a de sobrevivência.
Fonte: <span style=”font-style:italic;”>Wisconsin Department Of Health And Family Services</span>
</span>

As armas de fogo são responsáveis pelo crescimento dos homicídios em vários períodos, regiões e unidades da federação. Os sinais de alarme sobre o importante papel atribuível às armas de fogo no crescimento dos homicídios não são de hoje. Temos tido muitos estudos localizados que demonstraram exatamente essa tendência. Um deles foi feito aqui, no DF: desde 1979, o número absoluto anual de homicídios cresceu no Distrito Federal. Até 1985, eram menos de 200 por ano; em 1987, já eram mais de 300; em 1990, mais de 400 e em 1993, mais de 500. Entre 1980 e 1991, a população cresceu 36% mas os homicídios cresceram 261%. Houve um rápido crescimento da violência. A taxa por cem mil habitantes que, em 1980, era de 13,7, passou a 36,3 onze anos depois. A década de 80, chamada de “a década perdida”, foi marcada pelo crescimento da violência em vários pontos do Brasil e não somente no Distrito Federal. Foi a pior década da economia brasileira e latino-americana em muito tempo. A atual crise mundial é mais profunda e generalizada. Muitos afirmam que há relações entre crises econômicas e o crescimento dos homicídios. Não obstante, aquela década foi marcada, também, por um grande aumento no uso de drogas fortes, particularmente o crack e a cocaína e por um crescimento no uso de armas de fogo nos homicídios. Quaisquer que sejam as causas – drogas, recessão, quebra dos valores familiares etc. – os instrumentos da morte foram as armas de fogo, que passaram de 1,5 por cem mil, em 1980, a 36,3, em 1991. A taxa dos homicídios que usaram outros meios permaneceu estável: era 10,8 por cem mil em 1980 e 11,1 por cem mil em 1991. Quase todo o aumento brutal nos homicídios ocorrido entre 1980 e 1991 foi com armas de fogo. No DF, entre 1979 e 1995, os homicídios com armas de fogo aumentaram, aproximadamente, 25 por ano, durante o período. Antes de 1981, os homicídios com armas de fogo representavam aproximadamente um sexto do total; a partir da década de noventa, passaram a representar mais do dobro dos homicídios com outros meios. Também cresceram rapidamente os suicídios com armas de fogo: de 1979 a 1984, 18% dos suicídios no Distrito Federal foram com armas de fogo; de 1985 a 1989, saltaram para 28%, e entre 1990 e 1995, atingiram 37%. Os acidentes também revelam um aumento de mortes devidas às armas de fogo. Estes dados justificaram as campanhas preventivas, contra a proliferação de armas, empreendidas por diferentes secretarias estaduais de segurança. Há problemas estatísticos no calculo da violência no caso do Distrito Federal: um grande complicador é o Entorno, com um alto número de pessoas residentes que estudam, trabalham e se divertem no Distrito Federal. Muitos morrem no Distrito Federal e muitos matam no Distrito Federal. Por não serem residentes, aparecem nas estatísticas de mortalidade do Distrito Federal, mas não nas de população. Além disso, muitas pessoas são feridas no Entorno e trazidas para os hospitais do Distrito Federal, onde morrem. Qualquer análise séria dos homicídios e dos suicídios tem que levar em conta as armas de fogo. Elas são o principal instrumento dos homicídios dolosos e sua importância não para de crescer. Foi somente a partir de 2003, ano em que foi promulgado o Estatuto do Desarmamento, que a taxa dos homicídios começou a baixar, mas esse efeito (e continua) estava espacialmente concentrado.